Aventuras do Brigadeiro Gerard

Exposição | 6 a 23 de março | Espaço Polivalente (foyer)
Autor: Daniel Silvestre
Apoio:
FCT | Biblioteca FCT UNL | UMINHO/Serviço de Documentação


SOBRE A EXPOSIÇÃO

À volta de 1893, durante o hesitante final da série literária com Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle (1859-1930) começou a delinear um novo personagem – o oficial de cavalaria das tropas napoleónicas, Brigadeiro Etienne Gerard. Vaidoso, tonto, com a bravura de um inconsciente e os inesgotáveis recursos de quem tem uma cega vontade de glória, Gerard é um herói cómico que permitiu a Conan Doyle parodiar a visão estereotipada dos ingleses sobre os franceses, bem como mostrar as atitudes e os hábitos ingleses a partir do desconcertante ponto de vista de Gerard.

Embora escrevesse a partir de Inglaterra, o escritor documentou-se muitas vezes em relatos de soldados que participaram nos conflitos que estas aventuras têm como fundo. Os contos que compõem esta série foram originalmente publicados em The Strand Magazine entre 1894 e 1903, e foram mais tarde coligidos em dois volumes: The Exploits of Brigadier Gerard (1896) e The Adventures of Brigadier Gerard (1903). Muitos anos depois das Guerras Napoleónicas, com “setenta Janeiros a resfriarem-me o sangue”, o veterano Gerard relata as suas façanhas numa taberna de Paris junto de quem quer que ali pare para o ouvir. O palco destas narrativas situa-se nas diversas frentes de batalha de uma Europa transtornada pela guerra, onde é enviado em missões que raramente consegue completar. No entanto, a elevada auto-estima que Conan Doyle investiu na figura de Gerard, fazem dele um narrador nem sempre muito fiável. Desconfiamos das suas descrições enfatuadas e acabamos por nos aperceber de que as razões que levam os seus superiores a escolherem-no para missões perigosas não são tão nobres quanto as que acalenta Gerard.

A intenção de publicar estes dois contos por mim ilustrados é uma iniciativa da Câmara Municipal de Torres Vedras, como forma de sublinhar o vínculo entre o município e o legado histórico que as Linhas de Torres Vedras deixaram no contexto das Invasões Francesas. “O Crime do Brigadeiro” (no original: How the Brigadier Slew the Fox) passa-se na zona de Torres Vedras e conta como o General André Masséna bajulou as qualidades de Gerard para que fizesse uma missão de reconhecimento para lá das linhas defensivas que protegiam a península de Lisboa. Pela calada da noite, Gerard é avistado pelo inimigo, perde o seu próprio cavalo, anda de esconderijo em esconderijo atrás de moitas e por vinhas fora, rouba um cavalo inglês de caça à raposa, e acaba por ultrapassar os ingleses no seu próprio jogo, cortando heroicamente uma pobre raposa em duas partes.

O conto “Como o Brigadeiro salvou o exército” (no original: How the Brigadier saved the Army) é um dos raros exemplos na série em que o Brigadeiro consegue completar uma missão. Após seis meses de pressão sobre as Linhas de Torres Vedras, o exército francês está desmoralizado e prepara a sua retirada de território nacional. O General Masséna confia ao Brigadeiro a missão que irá avisar um outro segmento isolado do exército sobre esta retirada. Vaidoso com a importância da sua missão e, por conseguinte, da sua pessoa, Gerard percorre 10 milhas a pé, esconde-se num barril de vinho, rebola dentro dele por uma ravina abaixo, cai nas mãos do vilão português “Manuelo, o Sorridente” mas acaba por triunfar devido à sua argúcia.

Na ilustração destes dois contos, segui uma abordagem que se apropria de algumas das características das imagens do tempo do jovem Gerard – a referência ao desenho de caricatura que andava pelos jornais humorísticos que circulavam em França no início do século XIX; o uso de linhas paralelas e traço cruzado tão característico da linguagem visual da gravura, linguagem mais ou menos inevitável para quem quer que fizesse imagens reprodutíveis nesse tempo; a conversa com Masséna em banda desenhada com ponto de vista e enquadramento fixos, ainda assente no paradigma do teatro, antes da era do cinema; o uso de frontispícios e separadores ilustrados, bem como a inclusão do trecho de texto a que a ilustração se refere, são ainda outras das particularidades que encontramos na edição de livros da época. Este tipo de mimetismo histórico não pretende em momento algum o louvor de tempos idos na história da ilustração, nem tão pouco o louvor de outros valores associados ao tempo a que se refere. A inclinação por este tipo de desenho começou há alguns anos atrás e começou por ser formal e expressiva, ainda antes de saber que ao adotar estes processos gráficos dialogava com uma tradição. Ao ilustrar as Aventuras do Brigadeiro Gerard tive a oportunidade de olhar mais atentamente tanto processos técnicos como o próprio humor do século XIX, para a partir daí estabelecer um jogo que resulta em ilustrações que são inevitavelmente do nosso tempo. Da parte do leitor, espero que possa ter uma experiência de leitura um pouco mais informada sobre a cultura visual desse tempo em que o jovem Gerard tinha sangue na guelra.

Daniel Silvestre

 

SOBRE O AUTOR
Daniel Silvestre é docente convidado na Escola de Arquitetura da Universidade do Minho (EAUM) e na Escola de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), em Barcelos. Exerce atividade de Ilustrador editorial desde 2006.

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