Pouf Ydea

A Direção da ESTC agradece a doação que amável e simpaticamente a empresa Pouf Ydea  fez à Escola.

Assim, foi-nos permitido criar novos espaços de refeição e lazer para os nossos alunos, cumprido o que nos é exigido pela Direção Geral de Saúde na atual situação pandémica.

 

Muito obrigado!

CONTACTO: poufydea@gmail.com

 

 

 

Partilhar

A curta vencedora da 6ª edição do Festival Queer Porto é um filme ESTC

“À Tarde, sob o Sol”

Foi o vencedor do prémio Melhor Curta-Metragem de Escola Portuguesa da Competição “In My Shorts”, um filme extra-curricular produzido por alunos actuais da escola e apoiado pelo nosso departamento de cinema.

SINOPSE:

O sol bate em chapa nas costas de Carlos. O vento está parado. O ar está quente. Ar seco. Difícil de respirar, até ver Mateus.

Partilhar

Armando Nascimento Rosa foi o vencedor do Prémio Novas Dramaturgias 2020

Armando Nascimento Rosa, professor do Departamento de Teatro da ESTC, foi o vencedor do Prémio Novas Dramaturgias 2020, com a peça inédita Rimbaud no Dubai. O júri deliberou por unanimidade a atribuição do prémio a Rimbaud no Dubai, considerando-a, de entre as 33 peças de teatro a concurso, “o melhor texto original e inédito, escrito em língua portuguesa”. Esta foi a 4.ª edição do Prémio Novas Dramaturgias, promovido pela companhia teatral Lendias d’Encantar, com sede em Beja e apoiada pela DGArtes.

Armando Nascimento Rosa revelou a sua satisfação com este prémio, adiantando que o mesmo significa que aquilo que escreve “continua a ser instigante para o que se entende serem as novas dramaturgias“. O autor, dramaturgo, ensaísta e criador musical, que conta com cerca de trinta obras dramáticas originais, algumas delas premiadas e/ou traduzidas em sete línguas, acrescentou que o momento se reveste de especial importância pois assinala “vinte anos desde a estreia da [sua] primeira peça encenada“.

http://www.cultura-alentejo.pt/destaques,0,5860.aspx

Partilhar

Fundo de Apoio à Criação para Finalistas de Artes Performativas (2018/2019)

OPEN CALL (que decorre até 6 de Agosto resultante do Fundo de Apoio à Criação da Teatro Nacional 21)

BOLSAS PARA JOVENS CRIADORES

(FINALISTAS DAS ESCOLAS ARTÍSTICAS – 2018/2019)

Fundo de Apoio à Criação – TN21 – O Corpo de Helena

A Teatro Nacional 21 tem procurado desde sempre, um campo de experimentação na área teatral e da criação (mesmo que algumas escolhas de repertório pareçam remeter para formas clássicas de teatro). A TN21 tem também, e essencialmente, um passado com um repertório performativo, como é o caso de Violência – fetiche do homem bom e uma ópera-punk levada à cena em 2011 (ambos apresentados na sala estúdio do TNDMII).

Nesta senda de experimentação e de um olhar atento ao momento presente, a TN21 decidiu no âmbito da produção de O Corpo de Helena (projecto apoiado pelo fundo de emergência da Direção Geral das Artes), avançar com um Fundo de Apoio à Criação para jovens Artistas formados em Teatro/Artes Performativas, no ano letivo transato (2018/2019). Com esta iniciativa, a TN21 pretende reafirmar o seu compromisso com tempos que vivemos, oferecendo à sua escala uma resposta a uma nova geração de artistas (que não pode desistir ainda antes de começar).

DESTINATÁRIOS

Podem concorrer artistas individuais ou coletivos que tenham terminado um curso na área do Teatro/Artes Performativas no ano 2018-19. Os artistas ou estruturas que se candidatem não podem estar abrangidos pelo Apoio Sustentado da Direção Geral das Artes.

 

MONTANTE A ATRIBUIR

Serão selecionados três projetos.

(500 euros por projeto.)

PROJETOS SELECIONADOS

Os projetos selecionados terão de apresentar o espetáculo produzido em direto, através de um dispositivo on-line (à semelhança do projecto O Corpo de Helena), até 30 de Outubro de 2020. Os três projetos serão acompanhados pelos diretores artísticos da TN21, Albano Jerónimo e Cláudia Lucas Chéu, e apoiados na divulgação e comunicação dos seus espetáculos pela Produção da TN21.

CANDIDATURAS

Os interessados devem enviar email para fundo.tn21@gmail.com, com os seguintes elementos:

1) Nome completo;

2) Área artística;

3) Nota biográfica;

4) Breve descrição do projeto (máximo 1 página A4);

PRAZOS

As inscrições estão abertas até dia 6 de agosto e as três bolsas serão atribuídas até dia 17 de Agosto.

Partilhar

CORTE, de Afonso e Bernardo Rapazote, na competição Cinéfondation do Festival de Cannes

Corte, curta metragem realizada pelos jovens cineastas Afonso e Bernardo Rapazote e produzida pela Escola Superior de Teatro e Cinema no decurso da finalização dos seus estudos na nossa escola, é com enorme orgulho que destacamos que a mesma foi seleccionada pela Cinéfondation, a secção competitiva do Festival de Cannes dedicada a filmes de escola do mundo inteiro e novas vozes do cinema independente.

É a primeira vez em duas décadas que Portugal é representado na Cinéfondation e a primeira vez na história da competição que uma produção inteiramente portuguesa é seleccionada.

O filme propõe um olhar diferente sobre a ordem e a liberdade, bem como sobre a sua impossível conciliação. Para os gémeos Afonso e Bernardo Rapazote “a história é sempre um guia para o futuro, mais do que uma celebração do passado, o filme não é sobre o século XVIII, mas antes sobre a nossa percepção desse tempo com consciência do presente. Partindo dessa noção, pode dizer-se que aquilo que o filme mostra é o fim de uma família: um corte nos resíduos da família nuclear, neste caso a família real, que representa esse núcleo por excelência”.

 

CORTE

Ficção
2020, Portugal, 28’

ARGUMENTO: Afonso Rapazote, Bernardo Rapazote
FOTOGRAFIA: João Sanchez
SOM: Mariana Dionísio
MONTAGEM: João Pedro Duarte
PRODUÇÃO: Pedro Campelo, Lisbon Theater and Film School (ESTC)
ELENCO: Afonso Rapazote, António Mortágua, Bernardo Rapazote,
Gustavo Salvador Rebelo, Miguel Monteiro, Victor Gonçalves

TRAILER: https://vimeo.com/431459843

Partilhar

“O Cordeiro de Deus”, de David Pinheiro Vicente , está em competição no Festival de Cannes

David Pinheiro Vicente, diplomado da ESTC, após se ter estreado na realização com “Onde o Verão Vai (episódios da juventude)”, que teve estreia mundial na competição Berlinale Shorts e foi exibida em mais de 40 festivais, sendo premiada em San Sebastian,Tel Aviv e Vila do Conde e com estreia televisiva através do canal Arte-ZDF. Novamente nos alegra com a notícias de que o seu novo filme é um dos 11 seleccionados a integrar a secção competitiva de curtas-metragens no Festival de Cannes 2020. A Palma d’Ouro será anunciada em Outubro.

Apesar da impossibilidade do Festival de Cannes se realizar presencialmente, aqui na Escola Superior de Teatro e Cinema não poderíamos estar mais orgulhosos do percurso do David.

“O Cordeiro de Deus” parte do imaginário do realizador sobre uma vila no interior de Portugal, numa casa onde o pai do David cresceu e viveu, hoje em semi abandono. O filme reconstitui-a, o Portugal antes do 25 de Abril, a descoberta da sexualidade e da violência.

“O Cordeiro de Deus” é uma coprodução luso-francesa entre os portugueses da Artificial Humors, de Gabriel Abrantes, e a francesa La Belle Affaire Productions.

David Pinheiro Vicente foi apontado como um dos 10 Próximos Jovens Realizadores pela European Film Academy e um dos Dez Novos Realizadores a Seguir pela European Film Promotion.

Partilhar

Prémios Guia dos Teatros 2020 – Melhor Desenho de Som – Emídio Buchinho

À semelhança do que tem vindo a acontecer em anos anteriores o blog “Guia dos Teatros” (www.guiadosteatros.blogspot.com) atribuiu na passada semana os Prémios de Teatro Guia dos Teatros (www.premiosguiadosteatros.blogspot.com). Após dois meses de recolha de votações do público através do blog, onde foram recebidas mais de 3.000 votações, Emídio Buchinho foi o vencedor do Prémio de Melhor Desenho de Som por “Auto da India” (Sonoplastia) e “R.U.R. – Robots Universais Rossum” (Design de Som), peças levadas à cena pelo Teatro Estúdio Fontenova.
Partilhar

In memoriam Natália de Matos

RUA DAS AMOREIRAS, 25

In memoriam de Natália de Matos (Maria Natália Rodrigues de Matos: Ovar, 20 de Dezembro de 1938-5 de Maio de 2020)

por Eugénia Vasques

 

Longos anos de trabalho prático, efectuado em Técnicas de Voz e suas áreas complementares, levam-me a afirmar que o mais importante na formação de um aluno — seja ele ou não futuro actor – é o investimento feito no seu trajecto vocal. As aquisições técnicas realizadas e tornadas automatismos, ao longo desse percurso, são os grandes alicerces em que assenta qualquer profissão que dependa da voz falada ou cantada. [. . . ] Um professor de voz deve saber identificar problemas vocais de vária ordem. Quando são do seu foro, deverá tentar estudá-los e encontrar a forma mais adequada para os ultrapassar. Por vezes, é necessário recorrer a um foniatra para fazer exames às cordas vocais ou avaliar outros problemas. Feita uma estroboscopia, o professor de voz é informado pelo médico do estado das cordas. Se existirem nódulos ou outras anomalias, não se poderá iniciar um trajecto vocal, pois corre-se o risco de agravar o problema. No caso dos nódulos, ou em fase operatória dos mesmos, só a terapia é aconselhável. (Natália de Matos, 1996)

 

Como lembra Fernando Heitor, um aluno-actor da safra do início dos anos 70 do nosso comum Conservatório (actualmente Escola Superior de Teatro e Cinema), Natália de Matos fazia parte, com João Mota e Francisco D’Orey (1931-2020) e também Águeda Sena (1927-2019) ou Glória de Matos, do grupo de jovens assistentes que, nos anos da Reforma Veiga Simão/Madalena Perdigão (1970-71) e do subsequente Período de Experiência Pedagógica (1971-1974), faziam o seu treino docente com os vários artistas estrangeiros (G. Shelley, Old Vc; Nico Pepe, Piccollo de Milano, etc.) convidados para auxiliar a Comissão Orientadora da Reforma do Conservatório. Natália de Matos e D’Orey, na sequência de convite pessoal de Madalena Perdigão (1923-1989), foram os assistentes de Bettina Jonic Calder, que assessorava, na componente vocal, o encenador britânico Peter Brook, um dos convidados a auxiliar na reforma do ensino artístico em Portugal.

“O trabalho da Natália de Matos tinha acabado, de vez, com as pedrinhas na boca (que quase engolíamos!) da Germana Tânger [1920-2018]”, lembra Luis Aguilar, também aluno desta fase de reforma e um dos mais jovens docentes da Escola de Teatro (e meus) no final dos anos 70. E assim, pela porta inovadora da reforma, faz a sua entrada nas nossas vidas a cantora Natália de Matos oriunda da Escola de Música, onde fora assistente da sua velha mestra, a cantora lírica Arminda Correia (1903-1988).

**

Natália de Matos, com uma formação muito diversificada em Música (piano, violoncelo, ópera, lied e sobretudo técnica vocal) que reflecte a sua curiosidade e os seus interesses cedo direccionados para o ensino, pertencia a uma escola de pensamento que defendia, esteticamente, a oposição entre Voz Natural e Voz Metamorfoseada e entendia que, no Teatro, a pauta do actor devia permitir-lhe, graças à técnica vocal e à respiração abdominal-costal, criar atmosferas, sensações e sentimentos, recorrendo a um domínio de expressões, atitudes e gestos. Por essa razão, promovia uma educação da voz (Expressão Oral) e do corpo (Movimento) com vista ao fortalecimento físico do actor, ao aumento da sua consciência vocal visando atingir os “automatismos” que “envolvem o corpo na sua totalidade” e permitem atingir uma elocução que sirva o texto, através “dos seus vários estilos e formas métricas”. O canto era, nas suas aulas, um instrumento, não um fim em si, ainda que a Professora defendesse, tal como muitos dos mestres com os quais trabalhou (André Roos, de Strasbourg, por exemplo), que se devia aumentar a cultura musical dos estudantes por meio de um repertório que ia, com felicidade, do vaudeville à música medieval, da música do século XVI ao século XIX, de Mozart a Brahms, dando importância à “canção popular” quer portuguesa, quer espanhola – que estudou –, quer francesa ou alemã.

Natália de Matos, amada e temida Professora de muitas gerações de actores portugueses que lhe dedicam um grande e carinhoso reconhecimento, defendia, de acordo com uma formação epocal que a conduziu da Suiça à França, da Espanha a Inglaterra, de Viena a Itália, uma técnica de “trajecto vocal”, uma pedagogia de continuidade (alunos com o mesmo docente do 1º ao 3º ano), o que conseguiu durante os seus quase trinta anos de carreira (excepção feita para os seus dois últimos anos de ensino). Defendia, igualmente, que as turmas da disciplina de Voz não ultrapassassem um dado nº de alunos e se evitasse, conscienciosamente, a massificação.

A nossa Professora era sensível aos problemas da voz e das cordas vocais dos indivíduos e ao estabelecimento de uma relação mestre-aluno “sadia no sentido de atingir, de forma descontraída, os objectivos pretendidos numa área [. . .] que pode envolver a própria identidade do aluno.” Marcava, com rigor e carácter austero, as actividades individuais e de conjunto na sala de aula, com recurso ao piano, a audiovisuais simples (aliás, não havia outros!), a máscaras, a vestuários leves ou pesados, a sapatos altos ou coturnos e outros materiais promotores de posturas físicas diversificadas que exigissem flexibilidade vocal e equilíbrio no desequilíbrio.

Neste sentido, Natália de Matos promoveu, no decurso dos anos 70-80, um inicial trabalho de cooperação com professores de Corpo partilhando semelhantes objectivos técnicos, na procura de uma relação Corpo-Voz indutora de experimentação e da consciencialização do actor. Era, aliás, com estes mesmos objectivos que procurava, fora da Escola, espaços abertos ou fechados que oferecessem dificuldades acústicas variadas aos estudantes-actores e com eles estudava soluções que não lhes comprometessem as cordas vocais e permitisse uma maior projecção mesmo sem instrumentos de amplificação de som.

Na sua simplicidade de “mulher do Norte”, que cozinhava muito bem, que nunca cedeu às vicissitudes de uma vida atribulada e nem à doença que, com sentido anglo-saxónico de “privacidade”, escondeu até ao fim, Natália de Matos fez a sua revolução suave no território da educação vocal. Foi cantora e actriz – é comovente imaginá-la em masculino Bastien, na ópera de Mozart, ainda nos anos 50 da sua formação –, cruzou-se com grandes artistas nacionais e internacionais mas, de tudo o que fez, nos teatros, nas rádios, nas televisões, com professores, actores e cantores, foi o seu sentido de maternal cuidado que nos legou a todos, velhos e novos alunos, foi a sua dedicação exigente e a sua amorável solidariedade em qualquer situação de necessidade.

Choramo-la. Mas a vida, também profissional, não lhe foi fácil.

 

Lisboa, 5 de Maio de 2020, Dia Internacional da Língua Portuguesa

Partilhar

“O teatro como santuário” | Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2020

da autoria do dramaturgo paquistanês SHAID NEDEEM

“É uma enorme honra para mim escrever a mensagem do Dia mundial do Teatro 2020. É um sentimento de uma enorme humildade, mas é outrossim apaixonante pensar que o teatro paquistanês e o próprio Paquistão, foram reconhecidos pelo IIT, o organismo mundial do Teatro, mais influente e mais representativo da nossa época. Esta honra é identicamente uma homenagem à Madeecha Gauhar, ícone do teatro e fundadora do teatro Ajoka, identicamente a minha companheira de vida, falecida há dois anos. A equipa do Ajoka percorreu um longo e difícil caminho, literalmente da rua ao teatro. Todavia, é outrossim a história de numerosos grupos de teatro, estou certo. Nunca foi fácil e isento de choques. Foi sempre uma luta.

Sou oriundo de um país de predomínio muçulmano, que conheceu várias ditaduras militares, o horrível assalto dos extremistas religiosos e três guerras com a Índia vizinha, com a qual partilhamos milhares de anos de história e de herança. Presentemente, vivemos sempre no receio de uma guerra total com o nosso vizinho irmão gémeo, até de uma guerra nuclear, visto que os dois países possuem doravante armas nucleares.

Asseveramos, por vezes, zombando: “os maus momentos são bons para o teatro”. Os desafios à relevar não faltam, nem as contradições à expor e os status quo à derrubar. O meu grupo de teatro, Ajoka, e eu próprio caminhamos na corda bamba desde mais de 36 anos. É com efeito, uma corda bamba: manter o equilíbrio entre o divertimento e a educação, entre a pesquisa, confrontações arriscadas com a autoridade, entre o teatro socialmente crítico e o teatro financeiramente viável, entre o facto de atingir as massas e ser a vanguarda. Podemos asseverar que um criador de teatro deve ser um prestidigitador, um mágico.

No Paquistão, existe uma divisão clara entre o sagrado e o profano. Para o profano, não há lugar para as questões religiosas, enquanto para o sagrado, não existe possibilidade de debate aberto ou de novas ideias. De feito, o establishment conservador considera a arte e a cultura fora dos limites para os seus “jogos sagrados”. Deste modo, o terreno de jogo dos artistas foi como uma corrida de obstáculos. Eles devem antes de mais provar que são bons muçulmanos e cidadãos respeitadores da lei, e tentar estabelecer que a dança, a música e o teatro são “autorizados” no Islão. Um grande número de muçulmanos praticantes foram, por conseguinte, reticentes à abraçar as artes da cena, mesmo dos elementos da dança, da música e do teatro que se encontram ancorados na sua vida quotidiana. Enfim, caímos sobre uma subcultura que tinha o potencial de levar o Sagrado e o Profano sobre a mesma cena.

Sob o regime militar no Paquistão nos anos 1980, Ajoka foi lançado por um grupo de jovens artistas que desafiaram a ditadura através de um teatro de dissidência social e politicamente audacioso. Descobriram que os seus sentimentos, a sua cólera, a sua angústia, foram admirável e espantosamente bem expressos por um bardo sufista, que vivia há aproximadamente 300 anos. Tratava-se do grande poeta sufista Bulleh Shah (1680-1757). Ajoka descobriu que podia fazer declarações politicamente explosivas através da sua poesia, desafiando a autoridade política corrompida e o establishment religioso sectário. As autoridades podiam-nos proibir ou nos banir, mas não um poeta sufista venerado e popular como Bulleh Shah. Descobrimos que a sua vida era tão dramática e radical como a sua poesia, o que lhe valera fatnas e desterro enquanto viveu. Escrevi então “Bulha”, uma peça de teatro sobre a vida de Bulleh Shah. Bulha, como é afectuosamente denominado pelas massas de Ásia do Sul, era oriundo de uma tradição de poetas sufistas do Punjab que, pela sua poesia e a sua prática, desafiavam sem medo a autoridade dos imperadores e dos demagogos clericais. Eles escreviam na língua do povo e sobre as aspirações das massas. Na música e na dança, encontraram os meios de realizar uma associação direta entre o homem e Deus, contornando com desdém os intermediários religiosos que os exploravam. Desafiaram as divisões entre os sexos e as classes e observaram o planeta com admiração, como uma manifestação do Todo-Poderoso. O Conselho das artes de Lahore rejeitou o argumento, alegando o motivo que não se tratava de uma peça de teatro, mas de uma simples biografia. Todavia, quando a peça foi encenada e montada num outro lugar, O Goethe Instituto, o público viu, compreendeu e apreciou o simbolismo da vida e da poesia do poeta do povo. Puderam identificar-se, plenamente à sua vida e à sua época e ver os paralelos com a sua própria vida e a sua época.

Um novo tipo de teatro nasceu nesse dia, em 2001. A música de devoção Qawwali, a dança sufista do Dhamal e mesmo a recitação de poesia inspirada, o canto meditativo do Zikir, tornaram-se elementos da peça. Um grupo de shkhis, que se encontrava na cidade para assistir à uma conferência Punjab, veio ver a peça, invadiu a cena no fim, chorando e abraçando os actores. Eles partilhavam a cena pela primeira vez com Punjabis muçulmanos após a divisão da Índia em 1947, que acarretou a divisão do Punjab sobre linhas comuns. Bulleh Shah era-lhes outrossim caro como aos Punjabis muçulmanos, visto que os sofistas transcendem as divisões religiosas ou comunitárias.

Esta primeira memorável foi seguida pela odisseia indiana de Bulleh Shah. Começando por uma digressão inédita na parte indiana do Punjab, “Bulha” foi representada em toda a Índia. Mesmo quando dos momentos de tensão mais graves entre os dois países e em lugares onde o público não conhecia uma única palavra do Punjab, o público apreciava cada momento da peça. Enquanto as portas do diálogo político e da diplomacia se fechavam uma a uma, as portas das salas de teatro e o coração do público indiano permaneciam completamente abertos. Aquando da digressão de Ajoka no Punjab indiano em 2004, após uma representação muito calorosamente acolhida diante de um público rural de milhares de pessoas, um velho homem veio ver o actor interpretando o papel do grande sofista. O velho homem estava acompanhado de um jovem rapaz. “O meu neto encontra-se muito doente; podereis por favor dar-lhe uma bênção”. O actor ficou surpreendido e disse: “Babaji, eu não sou Bulleh Shah, sou apenas um actor que interpreta este papel”. O velho homem pôs-se a chorar e disse: “Por favor, benze o meu neto, eu sei que se curará, se o fizeres”. Propomos ao actor de atender o desejo do velho homem. O actor deu a bênção ao jovem. O velho ficou satisfeito. Antes de partir, proferiu estas palavras: “Meu filho, tu não és um actor, tu és uma reencarnação de Bulleh Shah, o seu Avatar”. De repente, um novo conceito de jogo, de teatro, se nos impôs, em que o actor se torna a reencarnação da personagem que encarna.

No decurso dos 18 anos de digressão de “Bulha” temos verificado uma reacção similar da parte de um público aparentemente não iniciado, para que o espectáculo não fosse unicamente uma experiência recreativa ou intelectualmente estimulante, mas um encontro espiritual comovente. Com efeito, o actor interpretando o papel do mestre sofista de Bulleh Shah foi tão profundamente influenciado pela experiência que ele próprio se transformou poeta sofista e publicou depois duas compilações de poemas. Os actores que participaram na produção partilharam este sentimento desde o início do espectáculo, o espírito de Bulleh Shah encontra-se entre eles e a cena parece ter sido elevado à um nível superior. Um erudito indiano, escrevendo sobre a peça, deu-lhe o título: “Quando o teatro se torna um santuário”.

Sou uma pessoa laica e o meu interesse para o sofisma é principalmente cultural. Interesso-me mais aos aspectos performativos e artísticos dos poetas sofistas do Punjab, mas o meu público, que não forçosamente extremista ou beato, pode ter crenças religiosas sinceras. A exploração de histórias como a de Bulleh Shah, tem disso de tal modo em todas as culturas, pode tornar-se uma ponte entre nós, criadores de teatro e público anónimo mas entusiasta. Em conjunto, pudemos descobrir as dimensões espirituais do teatro e construir pontes entre o passado e o presente, conduzindo à um porvir que é o destino de todas as comunidades; crentes e não-crentes, actores e velhos, e seus netos.

A razão para o qual partilho a história de Bulleh Shah e a nossa exploração de um tipo de teatro Sofista que, quando produzimos na cena, deixamos por vezes conduzir pela nossa filosofia do teatro, o nosso papel de precursores da mudança social, fazendo isso, arrastamos uma grande parte de massas atrás de nós. No nosso compromisso face aos desafios do presente, privamos das possibilidades de uma experiência espiritual profundamente comovente que o teatro pode oferecer.

No mundo do presente em que o sectarismo, o ódio e a violência estão novamente em progressão, as nações parecem opor-se umas às outras, os crentes batem-se contra outros crentes e as comunidades derramam o seu ódio contra outras comunidades … e durante este tempo, as crianças morrem de malnutrição, as mães durante o parto falecem por falta de cuidados médicos, em tempo oportuno, e as ideologias de ódio florescem. O nosso planeta encontra mergulhado, cada vez e mais, profundamente numa catástrofe climática, ouvimos e entendemos a martelagem dos cascos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Devemos reconstituir a nossa força espiritual; devemos combater a apatia, a letargia, o pessimismo, a cupidez e o desprezo do mundo no qual vivemos, do planeta no qual vivemos. O teatro possui um papel, um papel nobre, na dinamização e mobilização da humanidade para se relevar da sua queda no abismo. Ele pode elevar a cena, o espaço de representação, em algo de sagrado.

Na Ásia do Sul, os artistas tocam com reverência o piso da cena antes de colocar o pé, uma tradição antiga em que o espiritual e o cultural se mesclam. É tempo de reencontrar esta relação simbólica entre o artista e o público, o passado e o futuro. A criação teatral pode ser um acto sagrado e os actores podem, com efeito, tornar-se os avatares dos papéis que desempenham e interpretam. O teatro eleva a arte de jogar à um nível espiritual superior. O teatro possui o potencial para se transformar num santuário e o santuário um lugar de representação.”


(Versão portuguesa de KWAME KONDÉ).

Partilhar

COMUNICADO | 4 de Maio de 2020

 

 COMUNICADO 3/2020

 

Caros alunos, docentes e pessoal não docente,

Espero que todos se encontrem de boa saúde e que assim se mantenham.

A situação de pandemia por Covid-19 determinou alterações profundas do funcionamento da ESTC, nomeadamente pelo recurso ao regime de teletrabalho e de ensino à distância, com suspensão das aulas presenciais, desde o dia 12 de Março, em virtude da aplicação de medidas de contenção da progressão da pandemia e salvaguarda da saúde pública e individual.

A rápida alteração e adaptação das rotinas escolares e a manutenção do funcionamento do ano letivo e dos serviços da escola são obra de todos e merecem o devido reconhecimento dos órgãos diretivos da ESTC e, em particular, do Presidente.

Sabemos que esta adaptação não é ideal e isenta, em absoluto, de problemas, assimetrias e indefinições, factos que temos em consideração e análise e pelos quais nos justificamos, mas também sabemos que, na quase totalidade dos casos, ela decorre muito positivamente e, até ao momento e na consideração das atuais circunstâncias e do prognóstico possível que as mesmas sugerem, não compromete a consecução do ano letivo nos atuais moldes que são os recomendados pela tutela e pelo dever de continuarmos os esforços de prevenção e contenção da pandemia.

A evolução da pandemia por Covid-19 tem sido objeto de uma análise quotidiana, por parte das autoridades responsáveis, e dela fazem eco as recomendações e decisões das tutelas, das instituições públicas e religiosas e do setor privado. A impossibilidade de estas recomendações e decisões assumirem um caráter definitivo resulta do caráter relativo dessa análise, da qual é, no entanto, possível deduzir não ser ainda o momento adequado de se verificar um regresso normal ao funcionamento das instituições, embora seja desejável um regresso excecional, faseado, controlado e condicionado pelo cumprimento de recomendações do Serviço Nacional de Saúde e capacidade de resposta e gestão das instituições, na operacionalização dessas recomendações. Assim, acontecerá também no caso da ESTC.

Por conseguinte e na sequência da Recomendação / esclarecimento às Instituições de Ensino Superior do Gabinete do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior para a Elaboração de Planos para Levantamento Progressivo das Medidas de Contenção Motivadas pela Pandemia COVID-19, de 17 de Abril, das Recomendações para o Regresso Progressivo ao Trabalho Presencial Após o Levantamento do Estado de Emergência, emitidas pela Saúde Ocupacional do IPL e aprovadas em Conselho de Gestão do IPL a 21 de Abril, e do Despacho nº 112/2020 – IPL [pdf], de 24 de Abril, faço saber, em coordenação com as direções de departamento:

 

  1. A salvaguarda da saúde pública e individual e o seguimento da análise da evolução da pandemia pelas autoridades continuam a ser o desígnio superior e regulador de todas as decisões em curso, da sua emissão e da sua operacionalização.
  2. O regime de ensino à distância continuará a constituir a norma de procedimento até ao final do ano letivo, 31 de Julho de 2020.
  3. Se as condições o permitirem, a partir de 1 de junho, os Serviços poderão ter um regime de teletrabalho parcial ou horários desfasados.
  4. A avaliação dos alunos será feita e decorrerá do modelo de ensino em curso e dos calendários previstos para o efeito que, em alguns casos, exigiram ajustamentos.
  5. Em casos de absoluta e comprovada impossibilidade da avaliação, dever-se-ão encontrar os modos alternativos que possibilitem essa avaliação — avaliação final / exame, recurso excecional e planeado a sessões presenciais, tutoria, outros que os órgãos competentes venham a reconhecer —, podendo o período de avaliação do segundo semestre ser estendido até ao final do ano civil, em particular, em UCs de realização de dissertação, estágio e trabalho projeto e outras de conclusão de curso ou realização de trabalhos finais incompatíveis com o regime de ensino à distância, ainda que lecionadas nesse modelo.
  6. Em «casos excecionais e de absoluta necessidade», tal como expresso no Despacho nº 112/2020 – IPL [pdf], em que se considere pedagogicamente imprescindível o regresso ao regime presencial, o mesmo deve ser, com a devida antecipação, comunicado à Direção de Departamento, decidido, planificado e coordenado pela mesma.
  7. A operacionalização e efetivação desse regresso, que nunca acontecerá antes de 12 de Junho, dependem, em primeiro lugar, da verificação intransigente das condições do regresso, nomeadamente, no que diz respeito a aprovisionamento dos materiais de segurança e sua distribuição, gestão de pessoal não docente essencial, gestão de espaços e de horários, cumprimento de normas de segurança, entre as quais a desinfeção de espaços e equipamentos, o distanciamento social recomendado e a utilização de EPI (equipamento de proteção individual).
  8. Para o cumprimento do número anterior, no que diz respeito à aquisição e aprovisionamento de materiais, equipamentos e serviços, a Presidência, os Serviços e as Direções de Departamento já fizeram chegar e, sempre que as circunstâncias o justificarem, farão chegar aos Serviços da Presidência do IPL requisições de material e serviços, considerados necessários e essenciais.
  9. O levantamento progressivo das medidas de contenção e o regresso progressivo ao trabalho presencial não significam nem a desconsideração do modelo de trabalho em curso, que ultrapassou positivamente todas as expetativas mais razoáveis e só é sinónimo do empenho que nos une, nem, infelizmente, o regresso não condicionado ou meramente voluntário à Escola. Significam a salvaguarda de situações pedagógicas e de avaliação excecionais, a oportunidade de verificar e testar a implementação de medidas que possibilitam esse regresso e o diagnóstico de situações que facilitarão o início e realização do próximo ano letivo.

 

Sem prejuízo de informações adicionais da Presidência, seguir-se-ão a este comunicado, em documentos próprios, os planos e medidas de operacionalização por parte das Direções de Departamento, que sei considerarem para o efeito a máxima urgência e diligência.

Ao dispor da ESTC, a todos endereço os meus cumprimentos e agradecimento.

 

David João Neves Antunes

4 de maio de 2020

 

 

 

Partilhar