EXPOSIÇÃO | O Pão Quotidiano

VER E DAR A VER

Ver é a pura loucura do corpo. | Clarisse Lispector |

Há uma coisa que fotógrafos e cineastas partilham: a necessidade, mesmo a urgência, de ver.
Houve um mestre na Escola Superior de Teatro e Cinema que o ensinou incessantemente aos seus alunos. Foi António Reis. Segundo o que um deles escreveu*, Reis insistia que deviam “acima de tudo, aprender a ver e que saber ver é uma coisa difícil que se aprende e que é necessário cultivar”.
Para uso e fruição própria, em primeiro lugar; para dar a ver aos outros, se se tiver a aptidão para tal. Já Baudelaire, ao falar do seu muito estimado senhor G.**, dizia: “Poucos homens são dotados da faculdade de ver; e menos ainda são os que possuem o poder de exprimir.”
Essa capacidade de expressão que António Reis exerceu através da câmara de cinema, usando-a como um meio para conhecer o homem e o mundo do seu tempo, em especial o do Portugal rural, interior e mais isolado. Um mundo que ele sabia que, inevitavelmente, se transformaria com a esperada aceleração histórica da vida do país no pós- 25 de Abril.
Mas a que propósito vem este meu discurso? Vem porque, modestamente, quis fazer uma vénia a António Reis com esta minha exposição de fotografia, na sequência da homenagem que a direção da Escola Superior de Teatro e Cinema lhe decidiu, em boa hora, fazer.
Tive o prazer de conhecer pessoalmente António Reis como docente desta Escola desde que, em 1987,nela passei a exercer o cargo de Secretário e foi com natural tristeza que, logo em 1991, o vi desaparecer do nosso convívio.
Já não como secretário da escola mas enquanto fotógrafo e amante de cinema, conhecia a sua obra e admirava-a.
Hoje atrevo-me a dizer que ambos partilhámos, naqueles anos setenta e oitenta do século passado, cada um no seu medium, uma visão tão realista quanto poética da gente humilde do nosso povo, fosse ela do interior, do litoral ou das cidades. Sem esquecermos a presença permanente e anunciadora de futuro das crianças, que tanto gostámos de captar.
Decidi pois trazer para esta exposição uma amostra dessa fase inicial da minha fotografia, em que privilegiei sobretudo o elemento humano e o meio onde se inseria, onde residia, onde trabalhava e onde se relacionava. Fi-lo sem intuitos etnográficos, com seriedade e respeito por aqueles que me serviram de modelos e procurando sempre expressar a verdade e a beleza da vida humana.
Vida que é, como se sabe, uma constante luta pela sobrevivência, a começar pela obtenção do alimento, o pão quotidiano. Base de todos os outros alimentos de que o corpo e a alma necessitam para o seu pleno desenvolvimento.
Escolhido esse pano de fundo para esta exposição e o seu título, coube-me fazer de curador do meu próprio trabalho, selecionando as fotografias que mais se podiam relacionar com António Reis, quer por terem sido tiradas em locais onde ele à época viveu, quer por se debruçarem sobre os seus universos reais ou míticos. Daí a opção inicial por muitas fotografias do Porto, onde ele viveu muitos anos (apesar de ter nascido em Valadares e residido em Gaia) e onde se fez poeta e aprendeu a fazer cinema. Seguem-se fotografias tiradas sobretudo em Lisboa, cidade para onde veio morar e onde se consagrou como cineasta e como mestre de sucessivas gerações de estudantes de cinema. Aqui veio a falecer, deixando inconcretizado o projeto de um filme sobre a obra “Pedro Páramo” do escritor mexicano Juan Rulfo. E a exposição termina com imagens dedicadas ao mundo rural, muito filmado por Reis, mas também ao mundo piscatório, tão característico quanto aquele.
Fiz só três novas fotografias para esta exposição, as quais se destacam portanto do conjunto das fotografias da época que ela abrange. Trata-se, em primeiro lugar, da fotografia que abre a exposição e que partilha o título com ela: “O Pão Quotidiano”. Foi tirada em Bruxelas já quando procurava uma imagem para este tema. As duas restantes são as que estão para lá da última, que se intitula “Aldeia Deserta”, lugar de onde os habitantes saíram (Para ganhar o pão? Para emigrar?) e aonde podem ou não voltar. São as duas que, supostamente, tirei a Pedro Páramo, ou ao seu fantasma, o cacique de Comala, a aldeia mexicana dos mortos-vivos que Juan Rulfo nos deu a ver, através da palavra, e que António Reis o queria fazer através da imagem cinematográfica.
Gostaria muito que nesta exposição tivesse conseguido dar a ver um pouco do meu país e da sua gente na segunda metade do século XX e que estas fotografias possam ser contempladas hoje, por gente de agora, em termos simultaneamente pessoais, políticos, económicos, dramáticos, quotidianos e históricos (parafraseando John Berger). Significaria isso que tinham servido de instrumentos de conhecimento, o que sempre foi também um objetivo para o cinema de António Reis.
Por último, gostaria muitíssimo que esse grande Poeta da palavra e da imagem a viesse visitar e me dissesse algo como: “Continue a ver assim poeticamente, ligando realidade e imaginação, como eu fiz”.

João António Fazenda

* Pedro Caldas, “Sobre Dois Planos de Ana” de António Reis e Margarida Cordeiro,22/09/2014 in Interact, Revista de Arte, Cultura e Tecnologia.
**Charles Baudelaire, “O Pintor da Vida Moderna” in “A Invenção da Modernidade (Sobre Arte, Literatura e Música)”, Relógio d´Água Editores.

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