É com tristeza maior que a Escola Superior de Teatro e Cinema assinala o falecimento de Elisa Lisboa, distinta atriz (e cantora) portuguesa que lecionou na Escola Superior de Teatro e Cinema, no curso de Formação de Atores, na década de 80 do século passado.
Oriunda de uma família de músicos (filha do cantor de ópera José Eurico Lisboa e neta do maestro Eduardo Pavia de Magalhães e da pianista Branca Belo de Carvalho), Elisa Lisboa iniciou a sua extensa carreira de atriz no Teatro Experimental de Cascais, em 1967, nos elencos de espetáculos encenados por Carlos Avilez, como sejam: Bodas de Sangue, de Garcia Lorca (1968); O Comissário de Polícia, de Gervásio Lobato; Maria Stuart, de Schiller (1969); Antepassados, Vendem-se, de Joaquim Paço d'Arcos (1970); e Um Chapéu de Palha de Itália, de Labiche (1970).
Das suas vocações de cantora e de atriz, foi o teatro que falou mais alto, nomeadamente quando optou por não alterar compromissos assumidos para uma estreia, declinando o convite, em 1969, para interpretar no Festival da Canção a icónica “Desfolhada Portuguesa”, com a qual Simone de Oliveira representou o país na Eurovisão. Um convite por certo decorrente da publicação do EP de estreia de Elisa Lisboa, pela Valentim de Carvalho, publicado em 1968, com quatro temas com música de Nuno Nazareth Fernandes, acompanhados pela orquestra de Jorge Machado, dois deles cantados em francês, e em que a canção-título do vinil, “Mulher-Mágoa”, tinha poema de José Carlos Ary dos Santos, que então apadrinhou a jovem estreante. Como cantora, Elisa publicaria, porém, apenas mais dois originais em formato single, em 1974, gravados com o Quarteto 1111: “Poetas” (José Régio/José Cid) e, em inglês, “Old Uncle Tom” (José Cid e Mike Sergeant).
Após a sua passagem pelo TEC, integrou a companhia Rey Colaço–Robles Monteiro, onde interpretou, por exemplo, Hedda Gabler, de Ibsen, O Duelo, de Bernardo Santareno, e O Rei está a Morrer, de Ionesco, ainda antes do 25 de Abril. Seguiu-se um longo e consistente percurso com diversos coletivos, destacando-se o Grupo Teatro Hoje, companhia residente no Teatro da Graça, que ajudou a fundar, e na qual integrou o elenco de espetáculos memoráveis, nomeadamente em encenações de Carlos Fernando, como sejam a estreia portuguesa d’ As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder (1986), ou o ciclo de peças de Tennessee Williams: O País do Dragão (1987); Vieux Carré (1988); e Terminal Bar (1990). Assinalem-se ainda as suas prestações nos palcos do Teatro da Trindade, Teatro São Luiz, Teatro Nacional D. Maria II e Teatro da Malaposta, em peças como: Os Sequestrados de Altona, de Sartre (1979); Tio Vânia, de Tchékov (1998); e O Dia dos Prodígios (2010), adaptação do romance de Lídia Jorge.
No cinema, a atriz manteve uma presença regular e consistente, colaborando com diferentes gerações de realizadores. Entre os trabalhos a que dedicou a sua arte, destacam-se os filmes: Sombras de uma Batalha, de Mario Camus (1993); Aparelho Voador a Baixa Altitude, de Solveig Nordlund (2002); Coisa Ruim, de Tiago Guedes e Frederico Serra (2006); Alasca, de Miguel Seabra Lopes (2009); Luz da Manhã, de Cláudia Varejão (2011); Fábrica dos Sonhos, de Tiago Buorbon, Sara Miguens, Paulo Santos e Miguel Soares (2011); A Primeira Ceia, de Luís Monge e Sofia Pimentão (2011); Os Últimos Dias, de Francisco Manuel Sousa (2011); A Teia de Gelo, de Nicolau Breyner (2012); ou Axilas, de José Fonseca e Costa (2016).
Na televisão, Elisa Lisboa constituiu uma presença marcante em séries e novelas ao longo de quatro décadas, desde Tragédia da Rua das Flores (RTP 1981), passando mais tarde, por exemplo, por produções como: Mistério Misterioso (RTP 1990); Sozinhos em Casa (RTP 1994); Sabor da Paixão (Rede Globo 2002/2003); Conta-me Como Foi (RTP 2008/2009); Feitiço de Amor (TVI 2008/09); Liberdade 21 (RTP 2009); Flor do Mar (TVI 2009); Cidade Despida (RTP 2010); Regresso a Sizalinda (RTP 2010); Mulheres (TVI 2014); ou Bem-Vindos a Beirais (RTP 2015); tendo o seu último desempenho ocorrido no pequeno ecrã no elenco principal da telenovela A Impostora (TVI, 2016), antes de um problema de saúde a impedir de trabalhar.
À família, amigos, colegas e antigos alunos, bem como à comunidade da Casa do Artista, onde a atriz residiu nos seus últimos anos de vida, a ESTC estende as suas mais sentidas condolências.
