É com imensa consternação e tristeza que a Escola Superior de Teatro e Cinema assinala o falecimento do professor João Milagre, colega e amigo, no domingo dia 5 de Julho.
João Milagre foi aluno destacado desta escola e durante anos desempenhou funções como assistente de realização em inúmeros filmes, portugueses e estrangeiros, destacando-se a sua repetida colaboração com Manoel de Oliveira, mas também os vários trabalhos que desenvolveu com José Fonseca e Costa, Luís Fonseca, Francisco Manso, Vicente Jorge Silva, Bille August, Patrice Chéreau, Charles Sturridge e Tom Clegg, entre muitos outros. Ao longo da sua carreira desempenhou também funções na área da produção, tendo realizado e escrito para televisão, nomeadamente no Clube Disney.
Junto com Luís Fonseca produziu vários espetáculos de Mónica Calle para a companhia de teatro Casa Conveniente.
Foi durante vários anos colaborador da Akademya Lusoh-Galáktika de Edgar Pêra, desempenhando múltiplas funções, uma polivalência que foi sempre seu apanágio, e que esteve em evidência na série de entrevistas que organizou com Graça Castanheira no Centro Cultural de Belém, "2084 Imagine", reunindo convidados das áreas da cultura, das artes e das ciências para refletir sobre o futuro, e que resultaria numa série da RTP3 com o mesmo nome. Mais uma vez, essa polivalência se manifestou no seu percurso musical, episódico pela preponderância do trabalho no cinema, mas onde importa referir as colaborações ao longo de décadas com músicos como David Maranha, Bernardo Devlin, Manuel Mota, assim como o facto de ter sido um dos membros fundadores da Galeria Zé Dos Bois - ZDB.
O que o seu trabalho ao longo dos anos revela é uma curiosidade sem fim, uma ligação apaixonada a todos os projectos e pessoas com quem trabalhou, interpretando qualquer função com a sua inteligência tão singular, uma inteligência que lhe permitia ultrapassar qualquer ideia básica do que essa função podia representar, tornando-a sempre em algo mais, mais que um braço direito, mais que um braço esquerdo, na verdade um coração à volta do qual qualquer projecto se organizava.
Para isso, para além das qualidades já referidas, muito contribuiu sempre outra das suas características distintivas, uma capacidade invulgar de juntar pessoas. O seu humor e generosidade foram sempre capazes de criar ligações onde elas não existiam, abrindo possibilidades, não apenas no trabalho mas na amizade.
Quando, poucos anos depois de ter entrado na ESTC como docente nas áreas de Argumento e Produção, o então director José Bogalheiro o convidou para desempenhar a função de subdirector do departamento de Cinema, esse gesto abriu caminho à enorme transformação que o departamento iniciou, entrando no século XXI de forma decisiva, adaptando-se às enormes transformações que o cinema sofreu e continua a sofrer neste século. A importância decisiva do João Milagre neste processo, nos 16 anos em que esteve nessa função, e depois disso, como Presidente do Conselho Pedagógico, nunca poderá ser realçada demais.
O seu falecimento, numa altura da vida em que tinha ainda tanto para contribuir, representa uma perda irreparável para a escola e para o ensino do cinema. Mas os seus ensinamentos permanecem em todos aqueles que se permitiram tocar pela sua sabedoria e pela sua amizade.
À sua companheira e aos seus filhos, à sua família e aos seus muitos amigos, a Escola Superior de Teatro e Cinema endereça as suas sentidas condolências.